"Tive que parar para respirar": diz Guilherme Briggs, dublador de Toy Story

Toy Story estreou dia 20 em todo Brasil, trazendo Woody, Buzz Lightyear e toda a turma da Pixar de volta às telas. Apesar de se passar apenas alguns meses após o emocionante Toy Story 3, a quarta parte é lançada nove anos após o predecessor, de 2010. Ao todo, são 25 anos da franquia, que, mesmo após todo esse tempo, realizou poucas mudanças no elenco original, com Tom Hanks no papel de Woody e Tim Allen na voz Buzz. Na dublagem brasileira é a mesma coisa: Guilherme Briggs também retorna pela quarta vez para o papel de Buzz, um dos mais marcantes de sua carreira, segundo ele próprio. 

Trata-se de uma declaração forte para um dublador que, com 30 anos de carreira, já deu voz a personagens marcantes do cinema. Lembra do Gollum, de O Senhor dos Anéis? Guilherme o dublou em O Hobbit: Uma Jornada Inesperada. E o malvadão Bane, vivido por Tom Hardy em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge? Guilherme também. O carioca ainda deu voz a Jim Carrey, Mickey Mouse, e até ao brinquedo assassino Chucky em um dos filmes da franquia. Na conversa abaixo, ele conta como Buzz Lightyear evoluiu ao longo dos anos e como o personagem chega à quarta parte de Toy Story - uma das mais emocionantes do título, que rendeu lágrimas ao próprio dublador duas vezes durante o trabalho. 

Abaixo uma entrevista que Guilherme deu a GQ Brasil:

GQ: No ano passado, o Tim Allen, que faz a voz do Buzz no filme original, disse que quase não conseguiu controlar o choro em algumas cenas. Como foi sua experiência nesse filme? 
Guilherme Briggs: Foi a mesma coisa comigo. Eu já sou um coração de manteiga, me emociono muito facilmente com certas coisas e a Pixar consegue acertar exatamente no ponto que me comove muito. Chorei duas vezes dublando o Buzz, tive de parar um pouco a gravação para poder respirar e seguir em frente. Me deixou emocionado ver mais uma vez os personagens evoluindo nesse filme e tendo que tomar decisões que nós mesmos tomamos em nossas vidas, sejam em fases boas ou ruins.

GQ: O Buzz é um brinquedo, tecnicamente ele não envelhece. Como você trabalhou a evolução do personagem ao longo dos quatro filmes? 
GB: Da mesma forma que o Tim Allen envelheceu, eu também. Depois de vários anos é natural a voz ficar mais grave, a interpretação melhorar, haver um refinamento do trabalho. Afinal, eu comecei a dublar o Buzz em 1995, com apenas 25 anos. Agora com quase 49, 24 anos depois, eu reencontro com ele em mais um filme. O que muda é a forma do Buzz se comportar, o que reflete na voz. No primeiro filme ele era um patrulheiro espacial, estilizado, compenetrado em sua missão importantíssima de livrar a galáxia do maligno imperador Zurg, para depois de um tremendo choque de realidade, passar de senhora Marocas pra um brinquedo comum e mais do que isso: um bom amigo de Woody e de todos os outros. 

GQ: O que podemos (ou devemos) esperar para o Buzz nessa quarta parte da história? Ele tem um crescimento? 
GB: Como todo personagem desenvolvido pela Pixar, que é uma brilhante contadora de histórias, ele tem sim mais uma evolução, assim como todos os brinquedos. É uma coisa inevitável para nós humanos e vamos perceber que será o mesmo para os personagens de Toy Story. Eu acredito que esse caminho tomado foi corajoso e bonito, como toda história de vida deve ser. Temos que nos desapegar de certas coisas, abraçar novas e seguir em frente. Aquela frase de Sartre que sempre gosto de citar se aplica muito bem a todos os quatro filmes de Toy Story: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. 

GQ: Falando dos três primeiros filmes, algum momento do Buzz o surpreendeu? Qual - e por quê? GB: Eu amo a virada dele no primeiro filme, de patrulheiro espacial para apenas um brinquedo. Quando ele cai em si, em situações trágicas e cômicas ao mesmo tempo. É simplesmente delicioso. No segundo filme tem a revelação do Zurg ser o pai dele, numa reviravolta épica inspirada em Star Wars e o encontro dele com outros bonecos de Buzz, ainda acreditando que são astronautas reais. No terceiro tem a entrega dos brinquedos que o Andy faz, que parte nossos corações e isso acaba sendo o ponto mais alto e forte de todos os filmes em minha opinião – que nos leva às lágrimas, todas as vezes. É a Pixar em sua melhor forma, conquistando mentes e corações de um jeito arrebatador. 

GQ: Pouca gente sabe, mas você também dublou o brinquedo assassino Chucky em O Culto de Chucky, certo? Num embate entre Buzz e Chucky, para quem você torceria? 
GB: Dublei o Chucky apenas nesse filme. Em anteriores ele foi dublado pelo querido Nelson Machado, com seu imenso talento. O filme veio para o Rio de Janeiro e acabei sendo escolhido pela diretora de dublagem, mas realmente o Nelson é insuperável e único nesse personagem. Sobre a questão, sinceramente eu digo a você que o boneco ruivinho de sardas não tem vez com o Buzz, não. Certamente ele e o Woody iam bolar um plano bem criativo pra colocar esse boneco pra correr e nunca mais retornar. 

GQ: Já são quase 30 anos desde que iniciou na profissão de dublador, certo? Como surge esse interesse? Quais os destaques de sua carreira? 
GB: O grande culpado é meu pai, que foi o meu mestre intelectual e artístico, sempre catalisando minhas aptidões. Eu, desde pequeno, conversava com ele sobre a possibilidade de um dia me tornar desenhista e dublador. Gravávamos historinhas com um velho gravador e vitrolinha para as músicas e efeitos. Então a arte da improvisação, da adaptação de texto, dos tipos e personagens ficaram familiares para mim. Tudo fluía naturalmente, com muita facilidade. Por isso que atualmente eu me sinto extremamente confortável na profissão, pois remete justamente à minha infância com meu querido pai, tão criativo e inteligente. Eu considero como destaques o Freakazoid, Daggett (Castores Pirados), Buzz Lightyear, o Grinch (Jim Carrey) e o Mickey Mouse, que foram personagens que me deram muitas alegrias e foram divisores de águas para a minha carreira. 

GQ: Se você pudesse ir a uma festa ou um jantar com cinco personagens que você já dublou, quais escolheria? 
GB: Com certeza o Buzz Lightyear estaria nessa lista, mas eu iria querer o Woody também. Junte então o Superman, Indiana Jones e Yoda, pronto. Seria um papo muito tranquilo e divertido. Só não chamo outros personagens queridos, como Daggett (Castores Pirados) e Freakazoid pois seria uma bagunça no restaurante e iam colocar a gente para fora, infelizmente. 

GQ: Em seu Instagram, você às vezes brinca com a dublagem de He-man (originalmente realizada por Garcia Jr). Qual personagem você não dublou, mas gostaria? 
GB: Eu prefiro não esperar, não desejar nenhum personagem novo para dublar. Se algum diretor ou cliente quiser, aí eu farei com prazer e alegria. Qualquer e todo personagem é bem-vindo, pequeno, médio, grande, tudo é trabalho - que é sagrado pra mim. E eu agradeço. Gratidão sempre. 

GQ: Qual era seu brinquedo favorito na infância? Como você o dublaria? 
GB: Eu já tenho dois brinquedos favoritos de infância que não tinham corpo, eram apenas ideias e conceitos e se transformaram em TOBIAS e BONECO AZUL GENÉRICO. Um, o Tobias, é um fantoche de espuma de um cão que eu considero o meu alter ego mais primitivo e puro. O outro, BAG, é uma espécie de consciência frouxa ou diabinho que temos no ombro, falando tudo que jamais teríamos coragem de revelar por vergonha ou por convenções sociais, de uma forma engraçada, bizarra e inesperada, claro.

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