Listas│5 filmes sobre a guerra da Coréia

Com o início da Guerra Fria, a Coreia foi dividida em duas regiões: um Sul capitalista e um Norte comunista. Em 1950, apoiada por soviéticos, a Coreia do Norte invadiu a do Sul. Pronto! Era a deixa para o Exército americano intervir, com a missão de bloquear o avanço do comunismo. A luta durou até 1953, quando se estabeleceu uma zona desmilitarizada separando as Coreias. Mas tecnicamente a guerra ainda não acabou. Apesar do cessar-fogo, nenhum tratado de paz foi assinado. E isso é motivo para coçar a cabeça. Afinal, o Norte tem um ditador com fama de maluco – que se gaba de ter bombas nucleares. Na época dos combates, o público já estava cansado de histórias da 2ª Guerra, e as produções sobre a Coreia não foram bem de bilheteria. Ainda assim, houve picos de qualidade nessa curta produção.

"M.A.S.H." (1970), de Robert Altman 
Honra ao mérito: É o mais anárquico dos filmes de guerra. 

A sigla que dá nome ao filme vem de Mobile Army Surgical Hospital, um modelo de hospital móvel do Exército americano criado no fim da 2ª Guerra, mas que emplacou mesmo no conflito dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte. Com os M.A.S.H., ficou possível ter um complexo médico bem equipado para cirurgias sempre próximo aos locais de combate – um sistema que permaneceu em uso pelos EUA até 2006. Esse ambiente de médicos-militares abrindo o peito de soldados entre a vida e a morte virou o cenário de um romance sobre as aventuras de um cirurgião do Exército na Guerra da Coreia, um livro que a 20th Century Fox resolveu transformar em filme. O problema é que ninguém queria dirigi-lo. 

O roteiro passou pelas mãos de 15 diretores até chegar a Robert Altman, mais conhecido na época por seu trabalho em séries de TV. Ao bater os olhos na história, o cineasta viu ali uma oportunidade de expressar sua crítica ao belicismo americano, mostrando o Exército da forma mais anárquica, infame e engraçada possível. Os EUA estavam em guerra contra o Vietnã em 1970, e Altman tirou do filme qualquer referência à Coreia, para confundir propositalmente o público e forçar uma analogia com o Vietnã – o que desagradaria aos chefões conservadores da Fox. Como o estúdio estava ao mesmo tempo ocupado com duas grandes produções de guerra (Patton e Tora! Tora! Tora!), Altman fez de tudo para manter seu filme pequeno, de modo a não chamar a atenção dos produtores e assim preservar sua visão ácida e ter liberdade artística. Deu preferência a atores pouco conhecidos, terminou as filmagens antes do prazo e usou menos dinheiro do que tinha para gastar. Quando o estúdio se deu conta, já era tarde demais. 

M.A.S.H. mostra um hospital militar onde os cirurgiões estão sempre bêbados ou transando com as enfermeiras. Um adolescente sul-coreano é requisitado pelos médicos para servir dry martinis, e um oficial linha dura é dopado e exposto em fotos pornográficas com as asiáticas. Em outra sequência, os doutores mimetizam o cenário de A Última Ceia, de Da Vinci, para o suicídio assistido de um médico com problemas de ereção. Quase nada disso estava no roteiro original do veterano Ring Lardner Junior, que se revoltou ao perceber que os atores ainda eram encorajados a improvisar suas falas. Por isso mesmo, muitas vezes os diálogos se embaralham – um toque realista do que seria um ambiente de guerra, intensificado pela fotografia em tom documental. 

As sequências não têm uma linearidade aparente, e o trabalho de filmagem foi tão caótico que os atores principais – Donald Sutherland e Elliot Gould – chegaram a pedir a demissão de Robert Altman. Mas estavam errados. M.A.S.H. teve tanto sucesso de bilheteria que virou uma série homônima que fez história na TV americana, ao longo de 11 temporadas.


Capacete de aço (1951), de Samuel Fuller 
Honra ao mérito: Foi a estreia da Guerra da Coreia no cinema. 

Um grupo de soldados americanos toma um mosteiro budista e ali, entre imagens religiosas e as orações de um menino local, se defende como pode dos ataques coreanos. Assim é o primeiro longa-metragem da história a retratar a Guerra da Coreia – filmado em apenas dez dias, só seis meses após o fim do conflito. Fuller queria que os sentimentos quanto à intervenção dos EUA na Ásia estivessem frescos na cabeça dos americanos e buscou imprimir o máximo de autenticidade na tela – seu ator principal, Gene Evans, com apenas 29 anos, já era veterano da 2ª Guerra, tendo recebido a Purple Heart, uma das principais condecorações do Exército, por bravura em combate. Esse realismo também passou por mostrar tanto o sacrifício dos soldados quanto seus exageros em ação: uma cena mostra o “mocinho” do filme fuzilando um prisioneiro desarmado. Quando militares americanos reclamaram da inclusão dessa cena de crueldade, Fuller retrucou garantindo que ele próprio havia presenciado atitudes com essas durante seus dias como soldado. 

O diretor também arrumou encrenca com o macartismo por críticas nada sutis ao governo. O prisioneiro coreano, antes de ser assassinado, questiona um soldado negro das razões de ele estar colocando a vida em risco por um país que o trata como cidadão de segunda classe. Em outro trecho, um americano de origem japonesa fala de como seus pais, civis inocentes, foram mandados para campos de prisioneiros enquanto os EUA estiveram em guerra contra o Japão. Por diálogos como esses, Samuel Fuller – um herói da 2ª Guerra – foi acusado de traição e de fazer propaganda comunista.

Os que Sabem Morrer (1957), de Anthony Mann 
Honra ao mérito: Troca efeitos especiais pela devastação humana. 

Um ponto em comum entre estes três melhores filmes a respeito da Guerra da Coreia é a produção de baixo orçamento. Na obra de Anthony Mann, não há tanques, aviões nem grandes contingentes de soldados se deslocando. Nenhuma cena interna ou noturna, dispensando o trabalho em estúdio. Apenas um reduzido pelotão de americanos esquecidos em território dominado pelo inimigo, tentando chegar a uma colina onde, acreditam – mais por desespero que por certeza –, encontrarão o restante de sua Divisão. 

Com essa crueza minimalista, Mann chega à essência do que pretende exibir: o medo, a hesitação e a coragem de quem está o tempo todo com a vida por um fio. Sentimentos humanos no lugar de efeitos especiais. E, nessa investigação do homem além da farda, dois personagens se destacam. O tenente Benson (Robert Ryan) luta entre a consciência da situação terrível e a necessidade de levantar o moral de seus comandados. Nessa missão, ainda é desafiado a todo momento pelo sargento Montana (Aldo Ray), um soldado quase bipolar: ao mesmo tempo em que personifica o militar instintivo, uma máquina de matar que atira em qualquer coisa que se mova, passa boa parte do filme cuidando de um coronel em estado catatônico, com o carinho de um filho. Paradoxos do ser humano que se expressam sem filtros no calor do campo de batalha.

“Sob o Domínio do Mal” (1962), de John Frankenheimer 

Uma tropa americana é aprisionada e passa por lavagem cerebral na Guerra da Coreia. De volta aos EUA, um sargento entra em transe sempre que vê uma carta de baralho. Sua missão zumbi: assassinar políticos e abrir caminho para que seu padrasto (um comunista disfarçado) chegue à Casa Branca. 

“Dr. Fantástico” (1964), de Stanley Kubrick 

Durante a Guerra Fria, qualquer razão para briga entre EUA e URSS podia explodir o planeta. Então Kubrick inventou o motivo mais ridículo. Um general paranoico acredita que a campanha para colocar flúor na água é um complô soviético: a água estaria contaminada para provocar impotência sexual nos americanos.

Post publicado originalmente em Revista Super Interessante 

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